CTG Filiado ao
Movimento
Tradicionalista Gaúcho
de São Paulo
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desenvolvido por: Priscilla K. Wagner - 1ª Prenda e
Renan Roncato Graciano
      A autêntica
cultura do povo e suas expressões estão alicerçadas
em tradições, em conhecimentos obtidos pela convivência
em grupo, somadas aos elementos históricos e sociológicos.
Seus legados e sua tradição, entre eles o seu modo
de vestir, são transportados para as gerações
seguintes, sujeitos a mudanças próprias de cada
época e circunstância.
      O homem do Rio Grande
do Sul adaptou suas vestimentas baseado nas suas necessidades
e no seu tipo de vida. Fica claro que os trajes, no decorrer da
história, aceitam os processos de modernização
e de transformação que uma cultura possa ter. A
cultura é viva e, enquanto viva, ela se modifica. Essas
modificações legaram ao gaúcho, além
de uma herança, beleza e identidade. Se os costumes são
constantemente alterados no decorrer da história, nada
mais claro de que os trajes também tenham tido uma modificação,
mantendo, no entanto, a sua raiz.
A Evolução da Indumentária
Gaúcha
Os quatro trajes fundamentais:
      Se formos dividir a história
da indumentária gaúcha, veremos que ela se dá
em 4 partes, e a cada uma delas corresponde uma indumentária
feminina:
      Quando o homem que veio
fazer a América - e se vestia à européia
- aqui chegou encontrou, nos campos, índios missioneiros
e índios cavaleiros.
      Índios Missioneiros:
(Tapes, Gês-guaranizados) - constituíam a matéria-prima
trabalhada pelos padres jesuítas dos Sete Povos.
      Os Missioneiros
se vestiam, conforme severa moral jesuítica. Passaram a
usar os calções europeus e em seguida a camisa,
introduzida nas missões pelo Padre Antônio Sepp.
      Usavam, ainda, uma peça
de indumentária não européia, proximamente
indígena - "el poncho" - isto é, o pala
bichará. Essa peça de indumentária não
existia no Rio Grande do Sul antes da chegada do branco, pois
os nossos índios pré-missioneiros não teciam
e nem fiavam.
      Os Padres
descobriram a atração que as vestes religiosas e
as fardas militares exerciam sobre os índios e distribuíram
essas roupas entre eles. Assim, figurar o Alferes Real Sepé
Tiarayu, desnudo ou vestindo chiripá, é erro grosseiro.
Ele usaria a farda correspondente ao seu alto grau militar, ou
vestir-se-ia civilmente, com bragas, camisa e poncho.
      A mulher missioneira,
usava o "tipoy", que era um longo vestido formado por
dois panos costurados entre si, deixando sem costurar, apenas
duas aberturas para os braços e uma para o pescoço.
Na cintura, usavam uma espécie de cordão, chamado
"chumbé". O "tipoy" era feito de algodão
esbranquiçado, mas em seguida se tornava avermelhado com
o pó das Missões. Em ocasiões festivas, a
índia missioneira gostava de usar um alvo "tipoy"
de linho sobre o de uso diário. Apenas nas vestes religiosas,
sobretudo nas procissões, as índias usavam mantos
de cores dramáticas, como o roxo e o negro.
      Índios cavaleiros:
(Mbaias: Charruas, Minuanos, Yarós, etc): eram assim chamados
porque prontamente se adonaram do cavalo trazido pelo branco,
desenvolvendo uma surpreendente técnica de amestramento
e equitação.
      Usavam duas peças
de indumentária absolutamente originais: o "chiripá"
e o "cayapi".
      O chiripá era
uma espécie de saia, constituída por um retângulo
de pano enrolado na cintura, até os joelhos. O cayapi dos
minuanos era um couro de boi, inteiro e bem sovado (que se usava
às costas) com o pêlo para dentro e carnal para fora,
pintado de listras verticais e horizontais, em cinza e ocre. À
noite, servia de cama, estirado no chão. Os charruas o
chamavam de "quillapi" e "toropi".
      A mulher, entre os índios
cavaleiros, usava apenas o chiripá. No rosto, pintura ritual
de passagem, assinalando a entrada na puberdade. No pescoço,
colares de contas ou dentes de feras.
      De peças da indumentária
ibérica, de peças da indumentária indígena
e tantas outras, o gaúcho foi constituindo sua própria
indumentária.
Traje Gaúcho - 1730 à 1820
Patrão das Vacarias e Estancieira Gaúcha
      O primeiro
caudilho riograndense, tinha mais dinheiro e se vestia melhor.
Foi o primeiro estancieiro. Trajava-se basicamente à européia,
com a braga e as ceroulas de crivo. Passou a usar também
a bota de garrão de potro, invenção gauchesca
típica. Igualmente o cinturão-guaiaca, o lenço
de pescoço, o pala indígena, a tira de pano prendendo
os cabelos, o chapéu de pança de burro, etc.
      A mulher desse rico estancieiro,
usava botinhas fechadas, meias brancas ou de cor, longos vestidos
de seda ou veludo, botinhas fechadas, mantilha, chale ou sobrepeliz,
grande travessa prendendo os cabelos enrolados e o infaltável
leque.
  
Peão das Vacarias e China
das Vacarias
      O traje do peão
das vacarias destinava-se a proteger o usuário e a não
atrapalhar a sua atividade - caçar o gado e cavalgar. Normalmente,
este gaúcho só usava o chiripá primitivo
(pano enrolado como saia, até os joelhos, meio aberto na
frente, para facilitar a equitação e mesmo o caminhar
do homem) e um pala enfiado na cabeça. O chiripá,
em pouco tempo, assumia uma cor indistinta de múgria -
cor de esfregão. À cintura, faixa larga, negra,
ou cinturão de bolsas, tipo guaiaca, adaptado para levar
moedas, palhas e fumo e, mais tarde, cédulas, relógio
e até pistola. Ainda à cintura, as infaltáveis
armas desse homem: as boleadeiras, a faca flamenga ou a adaga
e, mais raramente, o facão. E sempre à mão,
a lança - de peleia ou de trabalho. Camisa, quando contava
com uma, era de algodão branco ou riscado, sem botões,
apenas com cadarços nos punhos, com gola imensa e mangas
largas. Pala, não faltava, comumente, o de lã -
chamado "bichará"- em cores naturais, e mais
raramente o de algodão e o de seda que aos poucos vão
aparecendo. Logo, também surge o poncho redondo, de cor
azul e forrado de baeta vermelha.
     
Pala: tem origem indígena. Pode ser de lã ou algodão,
quando protege contra o frio, ou de seda, quando protege contra
o calor. É sempre retangular com franjas nos quatro lados.
A gola do pala é um simples talho, por onde o homem enfia
o pescoço.
      Poncho: Tem origem inteiramente
gauchesca. É feito, invariavelmente, de lã grossa.
Quase sempre é azul escuro, forrado de baeta vermelha,
mas também existem de outras combinações
de cores. O poncho tem a forma circular ou ovalada. Só
protege contra o frio e a chuva. A gola é alta, abotoada
e há um peitilho na frente do poncho.
      As botas
mais comuns eram as de garrão-de-potro, que eram retiradas
de vacas, burros e éguas (raramente era usado o couro de
potro, que lhe deu o nome). Essas botas eram lonqueadas ou perdiam
o pêlo com o uso. Em uso, as botas não duravam mais
de 2 meses. Normalmente, eram feitas com o couro das pernas traseiras
do animal que dão botas maiores. As que eram tiradas das
patas dianteiras, muitas vezes eram cortadas na ponta e no calcanhar,
ficando o usuário com os dedos do pé e o calcanhar
de fora. Acima da barriga da perna, era ajustada por meio de tranças
ou tentos.
     As esporas mais comuns nessa época
eram as nazarenas (européias) e as chilenas (americanas).
As nazarenas têm esse nome devido aos seus espinhos pontudos,
que lembram os cravos que martirizaram Nosso Senhor. As chilenas,
devem seu nome à semelhança com as esporas do "huaso",
do Chile. Aos poucos, os ferreiros da época começaram
a criar novos tipos de esporas.
      O peão das vacarias não
era de muito luxo. Só usava ceroulas de crivo nas aglomerações
urbanas. Ademais, andava de pernas nuas como os índios.
À cabeça, usava a fita dos índios, prendendo
os cabelos - que os platinos chamam "vincha" - e também
o lenço, como touca, atado à nuca.
      O chapéu, quando usava, era
de palha (mais comum), e de feltro, (mais raro), e talvez o de
couro cru, chamado de "pança-de-burro", feito
com um retalho circular da barriga do muar, moldado na cabeça
de um palanque. O chapéu, qualquer que fosse o feitio,
era preso com barbicacho sob o queixo ou nariz. Esse barbicacho
era normalmente trançado em delicados tentos de couro cru,
tirados de lonca, ou então, eram simples cordões
de seda, torcidas, terminando em borlas que caía para o
lado direito. Mais raramente, era feito de sola e fivela.
      Ainda nesta época, aparece o
"cingidor", que é o nosso tirador.
      A mulher vestia-se pobremente: nada
mais que uma saia comprida, rodada, de cor escura e blusa clara
ou desbotada com o tempo. Pés e pernas descobertas, na
maioria das vezes. Por baixo, apenas usava bombachinhas, que eram
as calças femininas da época.
Traje Gaúcho - 1820 - 1865
Chiripá Farroupilha e Saia e Casaquinho
      Este período é
dominado por um chiripá que substituiu o anterior, que não
é adequado à equitação, mas para o homem
que anda a pé. O chiripá dessa nova fase é
em forma de grande fralda, passada por entre as pernas. Este se
adapta bem ao ato de cavalgar e essa é certamente a explicação
para o seu aparecimento. Com isto, fica claro que o Chiripá
Primitivo era de origem indígena. Já o Chiripá
Farroupilha é inteiramente gaúcho. Esse é um
traje muito funcional, nem muito curto, nem muito comprido, tendo
o joelho por limite, ao cobri-lo.
      As esporas
deste período são as chilenas, as nazarenas e os
novos tipos inventados pelos ferreiros da campanha. As botas são,
ainda, a bota forte, comum, a bota russilhona e a bota de garrão,
inteira ou de meio pé. As ceroulas são enfiadas
no cano da bota ou, quando por fora, mostram nas extremidades,
crivos, rendas e franjas. À cintura, faixa preta e guaiaca,
de uma ou duas fivelas. Camisa sem botões, de gola, e mangas
largas. Usavam jaleco, de lã ou mesmo veludo, e às
vezes, a jaqueta, com gola e manga de casaco, terminando na cintura,
fechado à frente por grandes botões ou moedas. No
pescoço, lenço de seda, nas cores mais populares,
vermelho ou branco. Porém, muitas vezes, o lenço
adotado tinha outras cores e padronagens. Em caso de luto, usava-se
o lenço preto. Com luto aliviado, preto com "petit-pois",
carijó ou xadrez de preto e branco. Aos ombros, pala, bichará
ou poncho. Na cabeça usavam a fita dos índios ou
o lenço amarrado à pirata e, se for o caso, chapéu
de feltro, com aba estreita e copa alta ou chapéu de palha,
sempre preso com barbicacho.
      A mulher, nesta época, usava
saia e casaquinho com discretas rendas e enfeites. Tinham as pernas
cobertas com meias, salvo na intimidade do lar. Usavam cabelo
solto ou trançado, para as solteiras e em coque para as
senhoras. Os sapatos eram fechados e discretos. Como jóias
apenas um camafeu ou broche. Ao pescoço vinha muitas vezes
o fichú (triângulo de seda ou crochê, com as
pontas fechados por um broche). Este foi o traje usado pelas ricas
e pobres desta época.
Traje gaúcho - 1865 até nossos
dias
Bombacha e Vestido de Prenda
     
A bombacha surgiu com os turcos e veio para o Brasil usada pelos
pobres na Guerra do Paraguai. Até o começo do século,
usar bombachas em um baile, seria um desrespeito. O gaúcho
viajava à cavalo, trajando bombachas e trazia as calças
"cola fina", dobradas em baixo dos pelegos, para frisar.
      As bombachas são
largas na Fronteira, estreitas na Serra e médias no Planalto,
abotoadas no tornozelo, e quase sempre com favos de mel. A correta
bombacha é a de cós largo, sem alças para
a cinta e com dois bolsos grandes nas laterais, de cores claras
para ocasiões festivas, sóbrias e escuras para viagens
ou trabalho.
      À cintura o fronteiriça
usa faixa; o serrano e planaltense dispensam a mesma e a guaiaca
da Fronteira é diferente da serrana, por esta ser geralmente
peluda e com coldre inteiriço.
      A camisa é de
um pano só, no máximo de pano riscado. Em ambiente
de maior respeito usa-se o colete, a blusa campeira ou o casaco.
      O lenço do pescoço
é atado por um nó de oito maneiras diferentes e
as cores branco e vermelho são as mais tradicionais.
      Usa-se mais freqüentemente
o chapéu de copa baixa e abas largas, podendo variar com
o gosto individual do usuário, evitando sempre enfeites
indiscretos no barbicacho.
      Por convenção
social o peão não usa chapéu em locais cobertos,
como por exemplo no interior de um galpão.
      As esporas mais utilizadas
são as "chilenas", destacando-se ainda as "nazarenas".
Botas, de sapataria preferencialmente pretas ou marrons.
      Para proteger-se da chuva
e do frio usa-se o poncho ou a capa campeira e do calor o poncho-pala.
Cita-se ainda o bichará como proteção contra
o frio do inverno. Obs.: O preto é somente usado em sinal
de luto.
      O tirador deve ser simples,
sem enfeites, curtos e com flecos compridos na Serra, de pontas
arredondadas no Planalto, comprido com ou sem flecos na Campanha
e de bordas retas com flecos de meio palmo na Fronteira.
      É vedado o uso
de bombacha com túnica tipo militar, bem como chiripás
por prendas por ser um traje masculino.
      A indumentária
da prenda é regulamentada por uma tese de autoria de Luiz
Celso Gomes Yarup, que foi aprovada no 34º. Congresso Tradicionalista
Gaúcho, em Caçapava do Sul.
01 - O vestido deverá ser, preferencialmente,
de uma peça, com barra da saia no peito do pé;
02 - A quantidade de passa-fitas, apliques, babados e rendas é
livre;
03 - O vestido pode ser de tecido estampado ou liso, sendo facultado
o uso de tecidos sintéticos com estamparia miúda
ou "petit-pois";
04 - Vedado o decote;
05 - Saia de armar: quantidade livre (sem exageros);
06 - Obrigatório o uso de bombachinhas, rendadas ou não,
cujo comprimento deverá atingir a altura do joelho;
07 - Mangas até os cotovelos, três quartos ou até
os pulsos;
08 - Facultativo o uso de lenço com pontas cruzadas sobre
o peito, também facultado o uso do fichú de seda
com franjas ou de crochê, preso com broche ou camafeu, ou
ainda do chale;
09 - Meias longas brancas ou coloridas, não transparentes;
10 - Sapato com salto 5 (cinco), ou meio salto, que abotoe do
lado de fora, por uma tira que passa sobre o peito do pé;
11 - Cabelo solto ou em trança (única ou dupla),
com flores ou fitas;
12 - Facultado o uso de brincos de argola de metal. Vedados os
de fantasia ou de plásticos;
13 - Vedado o uso de colares;
14 - Permitido o uso de pulseiras de aro de qualquer metal. Não
aceitas as pulseiras de plástico;
15 - Permitido o uso de um anel de metal em cada mão. Vedados
os de fantasia;
16 - É permitido o uso discreto de maquiagem facial, sem
batons roxos, sombras coloridas, delineadores em demasia;
17 - Vedado o uso de relógios de pulso e de luvas;
18 - Livre a criação dos vestidos, quanto a cores,
padrões e silhuetas, dentro dos parâmetros acima
enumerados.
Fonte: Indumentária Gaúcha
Antônio Augusto Fagundes - Martins Livreiro Editor (2ª
Edição)
Porto Alegre - 1985