| Boi-Tatá
      Em tempos mui antigos,
que as gentes mal se lembram, houve um grande dilúvio,
que afogou até os cerros mais altos. Pouca gente e poucos
bichos escaparam - quase tudo morreu. Mas a cobra-grande, chamada
pelos índios de Guaçu-boi, escapou. Tinha se enroscado
no galho mais alto da mais alta árvore e lá ficou
até que a enchente deu de si as águas empeçaram
a baixar e tudo foi serenando, serenando... Vendo aquele mundaréu
de gente e de bichos mortos, a Guaçu-boi, louca de fome,
achou o que comer. Mas - coisa estranha! - só comia os
olhos dos mortos. Diz-que os viventes, gente ou bicho, quando
morrem guardam os olhos a última luz que viram. E foi essa
luz que a Guaçu-boi foi comendo, foi comendo... E aí,
com tanta luz dentro, ela foi ficando brilhosa, mas não
de um fogo bom, quente e sem de uma luz fria, meio azulada. E
tantos olhos comeu e tanta luz guardou, que um dia a Guaçu-boi
arrebentou e morreu, espalhando esse clarão gelado por
todos os rincões. Os índios, quando viam aquilo,
assustavam-se, não mais reconhecendo a Guaçu-boi.
Diziam, cheios de medo: "Mboi-tatá! Mboi-tatá!",
que lá na língua deles quer dizer: Cobra de fogo!
Cobra de fogo! E até hoje o Boitatá anda errante
pelas noites do Rio Grande do Sul. Ronda os cemitérios
e os banhados, e de onde sai para perseguir os campeiros. Os mais
medrosos disparam, mas para os valentes é fácil:
basta desaprilhar o laço e atirar a armada em cima do Boitatá.
Atraído pela argola do laço, ele se enrosca todo,
se quebra e se some.
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