SÃO PAULO, QUE BAITA CHÃO!
Francisco Carlos Fighera
Alcei a perna no pingo, sonhos de moço
engarupados,
Deixei distante o meu pago e em São Paulo, apeei,
Confesso que me assustei e até achei que não ficava,
O cavalo corcoveava, mordendo a perna do freio,
Quase levo um tombo feio e se não firmo as rédeas,
voltava.
Achei tudo meio esquisito, uma grande correria,
Pra todo o lado que eu ia tinha um engarrafamento,
O céu, sempre meio cinzento, as estrelas não se
via,
A lua não aparecia e a saudade, por uma lado, me judiava,
Mas, por outro, me inspirava a fazer versos, poesias.
Então, comecei a te ver de um jeito diferente,
No meio de tanta gente, tantos prédios, tanto asfalto,
Drogas, violência, assaltos, o progresso, a poluição,
Vi que tens um baita coração e este chão
hospitaleiro,
Abriga a todo o estradeiro e também sua tradição.
Teus prédios, túneis, viadutos,
de ruas um emaranhado,
Carros pra todos os lados te dão forma aparente,
Tudo muda, de repente para ficares mais bela,
Pintada com aquarela pelo Patrão, lá de cima,
Que, por capricho, não termina há 450 anos, esta
tela.
Nesta selva, que não é de pedra,
a natureza ainda procria,
E se ouve, no clarear de cada dia, o cantar dos passarinhos,
E o vento, embalando os ninhos cheios de cores e de vidas,
A manhã abre as cortinas para o sol que vem discreto,
E quando toca o concreto a cidade se espreguiça.
São Paulo, onde se acolheram artes, folclores,
culturas,
Planos da mesma pintura, onde o Brasil acontece,
São Paulo, que irmanada, cresce junto com a esperança
de quem vem,
E todos te querem bem, cidade que tem de tudo,
Cidade de todo mundo e que não é de ninguém.
São Paulo, terra bendita, é uma
estância sem cancela,
Rancho que não tem tramela, teto que a todos abriga,
Se puxa o banco e se fica, teu candeeiro não se apaga,
Uns dormem, outros trabalham, nesse vai e vem de magia,
Dia e noite, noite e dia, e esta cidade não pára.
Mas, também, cobras um preço alto,
pela permanência,
A insegurança, a violência, rondam tuas ruas e
avenidas,
Às vezes, roubando vidas, o que é triste para
os teus anais,
E jovens e crianças, nos sinais, vivem de changas e apresentações,
No palco das ilusões, cenário dos desiguais.
São Paulo, que não envelhece,
no rodeio da existência,
Tu és a própria querência de tanto filho
adotivo,
És o torrão mais altivo, que recebe qualquer semente,
Passado, futuro, presente, que com raça, fé e
bravura,
Carinhosamente, emoldura os ideais de tanta gente.
Fui ficando e como tantos me aquerenciei, fiz
aqui minha morada,
Êta terra abençoada por Deus e a Mãe Aparecida,
Tua gente te dá vida e não cansa o teu coração,
Como se diz lá no meu rincão, quando a terra é
forte e boa,
Como a tua, "terra da garoa", SÃO PAULO, QUE
BAITA CHÃO.
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