VENDE-SE UM BOLICHO DE CAMPANHA
Francisco Carlos Fighera
Resolvi botar à venda meu bolicho de campanha,
Que aguentou enquanto deu,
Mas que por fim se rendeu
Aos modernismos da cidade,
Aos luxos e facilidades
Dos shoppings e supermercados,
Que vendem de tudo e facilitado,
Em suaves prestações,
Num sem fim de condições,
Entre cheques, carnês e cartões de comprar fiado.
Com a renda deste bolicho,
Juntando tostão por tostão,
Pude dar uma profissão
A cada um de meus filhos.
Mas quem se importa com isso?
Tampouco me importa quem,
Não devo nada a ninguém,
Paguei todos os meus impostos,
E é com isso que eu me importo,
E isso, e só isso me faz tão bem.
Minha Patroa às vezes chora,
Só eu sei o quanto lutou,
O quanto esta mulher peleou,
Pra me ajudar nesta lida,
Não chore minha querida,
Reze e peça a Deus que nos ajude.
Eu lutei enquanto pude,
E tu lutaste também,
Sempre nos quisemos bem,
E ainda temos saúde!
Já estão quase vazias,
As tulhas, as prateleiras,
O balcão, a geladeira,
Mas mesmo assim eu insisto em abrir todo o dia,
E receber com a mesma alegria
Aqueles que vem e os que não vem comprar,
Os que chegam só pra prosiar,
Tomar um mate, beber um trago.
Tudo é mais barato no supermercado,
E hoje tem o auto pra ir buscar.
Antigamente o pessoal chegava de a cavalo,
Nas carretas, nas carroças,
Depois da lida no campo ou na roça,
O bolicho era parada obrigatória,
Lugar alegre de muitos causos, muitas histórias,
Os homens prosiavam, negociavam, compartilhavam experiências,
Ninguém tinha pressa, sobrava paciência,
A gurizada se entretia com balas e pirulitos,
Até os animais sabiam o caminho
E as mulheres trocavam receitas e confidências.
Naquele tempo se fazia o rancho no bolicho
E se “marcava” pra pagar no fim do mês,
Ninguém era “cliente”, era “freguês”,
Palavra de sentido bem mais abrangente,
Tinha nome, era conhecido, gente da gente,
O cliente não se conhece,
Compra, paga, vai embora, se esquece,
Quando volta, se volta, não se lembra mais da cara,
Nem se pergunta o nome, ela já fala
Os números da identidade e do CPF.
As cadernetas ainda guardo num armário,
Elas são como diários, contam um pouco a história
do bolicho,
Mistura de letras, números, rabiscos,
Muitas coisas o próprio freguês marcava,
“Peguei isso e aquilo”, dizia, valia a palavra,
No pagamento, um simples traço ou xis servia de quitação.
Quem sabe, um dia, alguém queira levar de recordação,
Ou, até mesmo, alguém se lembre e venha procurar,
Pode ser que sirva pra provar,
Algum tempo pra uma aposentadoria ou pensão.
Hoje o bolicho ainda serve de referência,
Pra os que andam meio perdidos no rincão,
Muitos chegam só pra pedir informação,
Nem apeiam de suas motos, de seus carros,
A cachorrada se alegra, abana o rabo,
Mostro o caminho, puxo conversa, convido pra um mate,
“Noutra ocasião ou na volta, quem sabe”,
Agradecem, se despedem e se vão,
Na pressa louca dessa geração,
De chegar não sei aonde, antes que o mundo acabe.
Pensei em mandar avaliar o bolicho,
Não tenho idéia de quanto deve valer,
Pois nunca tive a intenção de vender,
E nem sei se alguém quer comprar,
Quem vai querer morar neste lugar?
O céu é azul, o ar puro, a água limpa,
tem arvoredo,
Açude, peixes, plantas, animais, sossego,
Flores, passarinhos, borboletas,
À noite, silêncio, vaga-lumes, luar, estrelas,
Será que tudo isso e essa paz têm preço?
Pintei de branco o bolicho,
E fiz uma placa pra anunciar,
Mas na hora de pregar
Faltou coragem, sobraram lágrimas,
A Patroa tremia, nem conseguia segurar a escada,
Se abracemo e se acampemo os dois a chorar,
Então percebi o quanto vale este lugar,
E decidi, não vou me desfazer da propriedade,
Vender este bolicho é como vender a própria liberdade,
Seja o que Deus quiser é aqui, é bem aqui que
nós vamos ficar!
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